INTRODUÇÃO
O homem pensa, organizar sem família ou sociedade, fala e
vive com os outros. Na companhia dos outros, o homem cria a cultura. A cultura
é ordenada por valores, costumes, normas que regulam e garantem a convivência
entre os homens. A cultura é constituída pelos vivos e mortos, mas ela é sempre
novidade para as crianças que acabam de nascer ou para os que não foram
iniciados. Os velhos sentem a responsabilidade de introduzir os mas novos nesta
cultura pela transmissão dos valores.
A educação é a
principal mediação na introdução dos mais novos pela primeira vez na cultura,
na sociedade. A educação tem a dimensão histórico-social, é portadora de
valores (orientações gerais e normativas de uma sociedade), sentimentos crenças
e praticas partilhadas pelos adultos e que se pretendem despertar nas crianças.
É a partir dos determinantes sócios históricos e cultural que em cada lugar, as
sociedades formulam sua própria educação.
Em Nampula, por
exemplo, o povo macua considera a educação pelos ritos de iniciação como meio
para formar o homem ou a mulher madura/o capaz de confiado/a pela família, sua
tribo, sua sociedade em todas dimensões humanas.
O sucesso de qualquer filosofia e política educacionais
depende da compreensão que os actores envolvidos tanto na concepção assim como
na implementação tem da origem da política e filosofia que a sustentam e o tipo
de homem e sociedade se pretendem construir. É necessário que os agentes
pastorais, fieis ao programa de Jesus Cristo na edificação do Reino dos Céus
(Mt 5,3), compreendam o que se pretende ensinar através dos ritos de iniciação
africana, em geral, e na comunidade macua, em particular para uma catequese,
evangelização e educação. Sendo assim, o que é rito de iniciação e qual é o seu
fim?
INTRODUÇÃO À ANTROPOLOGIA CULTURAL AFRICANA
Este é título do nosso curso. Vamos analisar palavra por
palavra para compreender melhor que significa.
1 Introdução: a palavra significa meter dentro, iniciar
um caminho, iniciação. No nosso caso, indica a entrada da compreensão da
matéria escolar e cientifica chamada ” Antropologia cultural”.
2- Antropologia: termo formado por duas palavras gregas,
Antropos, que significa homem e Lógia que quer dizer estuda. Por isso a
antropologia é o estudo do homem.
3- Cultura: Palavra derivada de cultura no sentido de
comportamento humano próprio de um povo.
4- Africana: Está a indicar de qual cultura nos ocupará,
da cultura africana.
O homem pode ser estudado sob vario aspecto, físico,
histórico, religioso, cultural. Por isso a palavra Antropologia está sempre
posta antes de um adjectivo que indica qual aspecto humano é estudado.
De facto temos: - Antropologia Genética: Estudo da origem
e de transmissão da vida humana.
- Antropologia Arqueológica: Estuda da vida e cultua de
povos antigos.
-Antropologia Religiosa: Estuda o fenómeno religioso do
homem. A lista poderia continuar. Nos iremos enfrentar o aspecto cultural do homem
possuidor da cultura africana.
O programa prevê, justamente, uma primeira parte de ordem
geral. De facto não se pode compreender o particular fora do geral. Por isso,
antes de falar da cultura africana iremos ver:
- O que é a cultura em sentido antropologia;
- A distinção entre cultura e elementos culturais;
- O processo de entrada numa cultura e a transmissão
cultural;
- A mudança cultural;
- A existência de muitas culturas;
- O fenómeno da cultura não moderna e da cultura moderna.
Estas nações são fundamentais para compreensão e ser
introduzidos na cultura africana ou melhor na Antropologia cultural. Sempre
matéria nem sempre foi chamada Antropologia cultural. Ate há poucos anos
chamava-se ETNOLOGIA. – Etnologia é um termo composto por dois vocábulos
gregos: “Etno” = Povo, + “Lógia ” = Estudo portanto = Estudo dos Povos.
“ Etnografia ” : É a descrição de uso e costumes de povos
particulares sem procurar conhecer as origens dos mesmos.
Finalidade do curso
Todo o saber tem uma finalidade. Estes podem ser
puramente teórica ou em vista de uma aplicação prática. O nosso estudo está
finalizado inculturação da fé, ao desenvolvimento e evangelização inculturação.
Isso em palavras simples significa: Como viver as novidades sem renegar tradições
culturais.
CONCEITO DE CULTURA EM SENTIDO ANTROPOLÓGICO
A palavra-chave do nosso curso é a cultura. Por isso, é
muito importante compreender a fundo o seu significado para nos introduzir na
Antropologia Cultural. A palavra CULTURA
deriva do Latim COLERE = Cultivar,
cuidar.
A traves dos séculos esta palavra foi carregando-se de
sentido diferentes:
1 – Cultivar a terra.
2 – Cultivar o espírito, a música, a ciência.
3 – Cultivar como civilização particular de um povo.
Estas três acepções da palavra permanecem. De facto nós
hoje dizemos:
1 – Cultura agrícola, cultuas de arroz, agricultor,
indicando o trabalho do homem em transformar a terra em machamba, em jardim.
2 – Cultura como saber. De facto existe o ministério de
educação e cultura; Consideramos bens culturais as obras de arte, a musica, a
dança…
3 – Cultura no sentido de civilização quer dizer a
maneira particular com que um povo organiza as suas relações com a natureza,
entre as pessoas e com o transcendente.
No primeiro caso, trata-se do sentido originário,
etimológico. No segundo caso fala-se de um sentido humanístico. No terceiro
caso, o que nos interessa, a cultura é vista sob o aspecto antropológico,
global, e compreende tudo o que o homem, como grupo organiza para responder
suas necessidades.
Definição de cultura antropológica
A definição clássica de Antropologia Cultural é de TYLOR
“ Aquele conjunto complexo que inclui conhecimento, crenças, arte, moral, leis,
costumes e várias outras aptidões e hábitos adquiridos pelo homem como membro
de uma sociedade.
É toda actividade consciente, deliberada do homem como
ser racional e como membro de uma sociedade e o conjunto das manifestações
concretas e abstractas que derivam desta actividade.
De quanto vimos dizendo, podemos deduzir que cultura é:
1 – Acto humano organizado em vista da boa ordem da vida
social o qual deve dar uma resposta a todas necessidades humanas de ordem
espiritual, material e social.
2 – Qualquer que seja o nível tecnológico de uma
sociedade é sempre fruto de cultura, porque fruto de pensamento, reflexão,
acção humana dirigida para uma finalidade.
3 – A cultura é uma estrutura sentido dado pelos
estruturalistas (Sussurre) querem dizer:
“ Conjunto de elementos orgânicos que se interligam e não
são compreensíveis e definíveis fora da rede de relações recíprocas”.
Para compreender melhor o conceito de Cultura
Antropológica pode servir-nos a ideia que suscita em na observação de uma
construção sólida estruturada, finalizada, material e espiritual, qual é uma
catedral, uma grande igreja.
O homem ser cultural
O homem e só o homem é um ser cultural porque só ele é
capaz de organizar-se socialmente e de transformar o ambiente natural em que se
encontra, para satisfazer as suas necessidades de ordem física, espiritual e
social.
Ele distingue-se do animal pelo facto que este satisfaz
as suas necessidades respondendo instintivamente aos impulsos geneticamente
herdados e biologicamente transmitidas de geração em geração. Fruto desta
distinção é possível observa-la, por exemplo na construção da casa. Os homens
construíram ao longo dos séculos com técnicas e materiais diferentes muitos
tipos de casas. Cada espécie de animal, pelo contrário constrói sempre o mesmo
tipo. Por quanto perfeito passa a ser, por exemplo um ninho de andorinha, ele
não é o fruto de cultura mas do instinto geneticamente herdado.
A casa do homem, mesmo a mas imperfeita, é pelo contrário
produto criativo das faculdades humanas, espirituais e orgânicas desenvolvidas
através do processo de aprendizagem e não hereditariedade genética.
OBJECTO DA CULTURA
O objecto de base da cultura é o produto dos actos
humanos.
Para compreender esta expressão precisa ter em conta o
facto de que ao actividade humana pode ser:
1 – Puramente biológica, instintiva e que portanto não
requer a intervenção da inteligência e da vontade humana, tais como a digestão,
a respiração e a circulação.
2 – Actos nos quais a reflexão, a vontade, a consciência
têm um papel dominante tais como: o facto o trabalhar, praticar a arte.
A actividade do tipo 1 é chamada: Acto do homem.
A actividade do tipo dois é chamada: Acto humano.
A cultura toma em consideração somente os actos humanos,
porque não são um produto da natureza, mas sim dos homens.
Outros conceitos de base. A Antropologia considera
elementos culturais, não um acto humano isolada de um indivíduo, de um só
homem, mas sim do grupo humano e por isso a cultura assume a característica de
ser social. Recordar que a cultura é uma hereditariedade social que o homem
recebe e transmite.
A CULTURA E AS NECESSIDADES HUMANAS
O homem como ser vivo muito complexo dotado de um corpo,
inteligente, livre, social, tem muitas necessidades que sozinho não pode
satisfazer. Alem disso o homem não possui, já dissemos um instinto biológico
tal que lhe indique como satisfazer suas necessidades segundo os impulsos da
sua espécie. O Homem portanto organizou-se em grupo social, criou um conjunto
de usos e costumes, tais que lhe permitem a sobrevivência e o crescimento em
humanidade, como resposta suas necessidades.
Estas podem ser de ordem:
- Material: comida, bebida, casa, meios de transportes…
- Sociais: família, politica, relações interpessoais…
- Espirituais: filosofia, religião…
- Artísticas: arte, danças musica…
- Cientificas: saber, técnicas…
- Defesa: cura das doenças, defesas dos elementos
naturais, das agressões de outros homens.
CULTURA: TOTALIDADE ESTÁVEL E DINÂMICA
A cultura antropológica (AC) deve ser encarada como um
estilo de vida global e estável de um povo. O que é parcial e passageiro tem
sentido somente luz do global estável. Para compreender este conceito voltamos
á parábola da catedral, vista no seu complexo ela se apresenta como construção
sólida com um estilo particular, diferente de outras igrejas compostas de
tantas partes (paredes, portas e janelas) comuns a muitas construções. Mas tem
também altares, imagens, confessionários. Se uma pessoa não conhecesse nada de
religião cristã, não compreenderia nada da catedral.
Conhecendo a existência da religião cristã. Nem todas as
necessidades que os fieis têm de se reunir em comunidades para o oculto e os
sacramentos, toda a construção e as suas varias partes adquirem um sentido
racional, funcional e lógico.
O mesmo acontece com a cultura. Nem todas as culturas são
iguais, como não são iguais entre elas todas as igrejas todas catedrais. Porém,
todas são lugares de oculto e de união dos cristãos. Todos têm as partes
essenciais para satisfazer as necessidades espirituais dos cristãos.
Por isso, toda a cultura apesar das diversidades
existentes, por exemplo na maneira de comunicar (língua e símbolos)
elas é, cada uma, uma resposta global e estável necessidade de um povo,
num determinado ambiente geográfico e num preciso momento histórico. Cada uma
possui valores, filosofias, técnicas, sistemas sociais interligados entre si
que permitem satisfazer as necessidades segundo as possibilidades
desenvolvidas.
Numa cultura, tudo é racional, fruto de actos e
criatividade humana. Por isso, toda a cultura é digna e merecedora de respeito.
Afirmar a Dignidade e a Racionalidade de toda cultura, não significa dar um
juízo de valor ético ou tecnológico. Dignidade e racionalidade não são
sinónimas de perfeição. Toda a cultura e todas as culturas, podem ter no seu
seio elementos anti-éticos, anti-científicos, tecnologias fracas. Destas
imperfeições o próprio povo se dá conta através de mecanismos que iremos
estudados e esta consciência é o motor que dinamiza a cultura. Daqui a
expressão:
“A cultura é estável mas não estática. Não é imóvel mas
mudanças, criativa. Quer dizer que sofre, no decorrer da história muitas
mudanças, mesmo mantendo estilo e o núcleo originário”.
Elementos culturais
A visão global do fenómeno cultural, não impede analisar
e das partes. Alias, só estudando o complexo dos usos e costumes é possível
chegar a compreensão da globalidade cultural. O método da antropologia cultural
compreende a observação objectiva dos fenómenos (usos e costumes) e o
significado último destes dados, a sua origem e finalidade.
A razão deste procedimento deriva do facto que a acção
humana tem sempre um aspecto físico, facilmente relevável, mas tem também
outros aspectos tais como: psíquico, valoráveis, filosófico, religioso, vividos
culturalmente por um povo.
Para facilitar o estudo os antropólogos classificam os
ECs. Em:
1.
MATERIAIS,
tomando em consideração as relações do homem com a natureza física e os
objectos concretos produzidos, (instrumentos de trabalho, economia,
agricultura, artesanato, indústria…).
2.
SOCIAIS,
tendo presente as relações interpessoais entre indivíduos, grupos da mesma
cultura e fora dela. ECs sociais: os sistemas, familiares, politico, o direito,
o sistema de resolver as controvérsias, …
3.
ESPIRITUAIS,
nos quais estão presentes as relações do homens com o mundo sobrenatural: culto
crenças, simbologia mítica.
Em relação aos ec. Precisa ter presente:
1.Nenhum
EC. É totalmente de uma só categoria. Habitualmente estão interligados. Por
exemplo uma cerimónia litúrgica é:
2.Espiritual,
porque é culto religioso.
3.Materiais,
porque utilizam material: farinha, hóstias, velas…, obra do homem sobre a
matéria.
4.Os
Ec. Formam entre eles um conjunto de tipo orgânico como acontece num ser vivo,
formado por aparelhos, órgãos, tecidos células. Por isso iremos ver que a
eliminação ou a introdução de um elemento comporto mudanças nas três ordens: materiais,
espirituais e sociais.
5.O número dos ECs não é igual nem por qualidade, nem por
quantidade nas diferentes culturas. Mais complexa é uma cultura, mais elementos
culturais possuem. Isso porém, não implica, globalmente inferioridade, mas
diversidade cultural.
Até há poucos anos costumava-se classificar as culturas
baseadas na escola económica, pondo no degrau ínfimo a cultura dos recolhe
dores e o último a das indústrias, passando pelos caçadores e agricultores.
Para a AC esta avaliação é errada, porque baseia-se sobre um EC, o sistema
económico, confrontando-o com os outros sistemas. O juízo não é de tipo AC, mas
pertence a outra ciência a economia, que tem uma metodologia de análise
diferente. Naturalmente não estamos dizendo que não se pode, ou não se deve
estudar e analisar os ECs Acontece na cultura o que acontece em biologia. Mesmo
sabendo que a vida é uma forma complexa de organização da matéria, nem por isso
deixamos de estudar as suas partes e é através desta análise que se chega a uma
melhor compreensão dos organismos.
PROCESSOS CULTURAIS
A
tradição: o primeiro
processo cultural é a tradição. Sobre ela está fundamentada a cultura. Sem tradição
podemos ter uma moda, mas nem sequer um EC. Em sentido etnológico a tradição é
o processo através do qual se transmite no decorrer do tempo, de uma geração
outra o património cultural de uma dada sociedade no seu complexo.
Esta transmissão no seio do povo, se efectua sempre e por
todo o lado. A transmissão está finalizada em conservar e perpetuar o conjunto
de saber, de ideias, costumes, técnicas, que a sociedade possui e qual atribui
uma grande importância.
Este processo de transmissão tem início na família onde
nascemos.
“ Os pais transmitem aos filhos as crenças nas quais têm
Fé, as fábulas e as danças que tornaram agradável a sua existência, as
técnicas, o artesanato que achou úteis para a produção. Transmitidas são também
as formas de moral e de bom comportamento social por eles experimentado e que
garantem o bom andamento da vida social, o respeito. Este processo é dinâmico:
porque implica uma actividade; é de conservação porque tem a tendência de
manter a estabilidade cultural, a tradição.
Entrada nas culturas:
Nenhum homem ao nascer é portador de uma cultura.
Potencialmente podemos pertencer a qualquer cultura. De facto possuímos ou
pertencemos a cultura na qual nasce « mos e fomos educados, com a possibilidade
de sermos introduzidos em outras culturas com as quais entramos em contacto».
O processo de entrada na cultura de origem é chamado
inculturação, o processo de entrada noutra cultura chama-se
A aculturação.
Inculturação:
é processo através do qual toda
a criança, todo o ser humano adquire do ambiente social onde nasce, por via
quase automática, toda a bagagem cultural necessária a uma normal inserção na
mesma sociedade.
Toda a criança ao nascer encontra á sua volta uma cultura
tradicional, que vai da maneira de falar, de comer completamente formada em
todos seus pormenores. Crescendo vai assimilando o comportamento dos adultos
sem quase dar-se conta. Os pais, os educadores, os amigos contribuem a formar
nele aquela maneira de comportar-se segundo a tradição.
Aculturação
Processo através do qual, uma pessoa, ou um grupo
cultural assuma, em tudo ou em parte, adaptando-os, usos e costumes de outra
cultura que não é a materna. Este processo pode interessar:
1-
Uma
pessoa individual que deslocando-se para outra área cultural se encontra na sociedade
de assumir novos comportamentos, por exemplo aprender a língua para
comunicar-se. Habitualmente além da língua, vivendo muito tempo num ambiente se
adquire quase insensivelmente muitos usos e costumes, técnicas, …
2-
Todo
o grupo étnico ou parte considerável, no caso de emigração voluntaria ou
forçada. A emigração obriga o emigrante a mudança aprendizagem. Quanto maior
for a diferença entre os dois grupos que se encontram, tanto maior será o
processo de aculturação.
3-
O
povo que recebe estrangeiro, recebe novidades culturais porque os emigrantes,
mesmo no caso em que não queiram impor nada, com o seu comportamento, “
ensinam” algo aos habitantes originários, como por exemplo, Uma dança. Novas
comidas, novos modos de vestir, a religião, técnicas novas, palavras… etc.
A aculturação nunca é em sentido único. Na história
cultural existe o fenómeno da troca de elementos que provoca outro fenómeno: a
Mudança cultural.
CONSERVAÇÂO E MUDANÇA CULTURAL:
Na cultura existem duas mudanças ou forças antagónicas:
- A estabilidade: conserva a tradição.
- O dinamismo: provoca a mudança.
Pela estabilidade a cultura a tradição opôs-se as
mudanças privilegiando a tradição, os usos e costumes codificados, a
conservação cultural.
Pelo dinamismo, cultura se abre a novos elementos ou
deixa cair outros favorecendo a mudanças cultural. A força da estabilidade
privilegia a tradição porque esta oferece ao indivíduo e ao grupo uma solução
satisfatória dos problemas existenciais de um dado momento histórico. Sendo que
habitualmente estas exigências não mudam radicalmente de um momento para o
outro, excepto em momentos de grande perturbação histórica. Geralmente o
individuo aceita e transmite a tradição sem contestação.
A conservação cultural é favorecida também pelo carácter
de sagrado que com que é carregada a tradição, vista como dom recebido pelos
antepassados por via sagrada, religiosa e cuja violação constitui um perigo,
atrai castigos ao indivíduo e ao grupo.
A cultura tradicional possui também um valor de
identidade, de unidade de coesão, de personalidade cultural da qual todo povo
se sente orgulhoso.
MUDANÇA CULTURAL:
Como vimos, pelo dinamismo inscrito na cultura, ela está
em contínua transformação. Comporta-se como um ser vivo que continuamente deve
adaptar-se ao ambiente e que portanto cria soluções novas resolver problemas
novos ou para solucionar melhor os que existem.
As mudanças podem ser:
“ Pequenas ou grandes, despercebidas ou violentas” (Lerma
Francisco Matriz Antropologia Cultural, 3-a ed. Nampula: Seminário propedêutico
Mater Apostolorum).
Os processos de mudanças culturais, estão ligados a
muitos factores.
As forcas renovadoras podem ser originadas:
1.
Pelo
processo de inculturação: mudança lenta, quase inconsciente, ao facto que
nenhuma transmissão é puramente repetitiva.
2.
Pelo
processo de invenção ou descoberta do tipo tecnológico ou filosófico,
espirituais e religioso.
3.
Contactos
interculturais com os povos vizinhos que podem verificar-se por inúmeras
causas: comercio, festas, casamentos, trabalho, politica, guerra…
4.
Fluxo
e refluxo migratório: As pessoas que emigram e depois voltam trazem novidades.
Na sociedade moderna há em curso um processo de mudança
cultural ligado a maciça comunicação social, difusão de bens e serviços
modernos., facilidade de contactos com culturas longínquas.
RITOS DE INICIAÇÃO
Os ritos de
iniciação, (na comunidade africana em geral e macua em particular), são uma
consciência de norma não escrita que consistem uma série de rituais nos rapazes
e raparigas como forma de introduzi-los (lás) na vida adulta pela transmissão
de valores, ou seja, são valores teóricos e práticos que os adultos revelam,
comunicam e ensinam as crianças para a vida adulta.
Podemos dizer que
os ritos de iniciação são práticas pelas quais as sociedades iniciam as
crianças para suas inserções no meio social como pessoas adultas.
Os ritos de iniciação são vários módulos de valores que
os adultos transmitem aos novos no processo de educação (Oscile-a). Os módulos
I; Valores vitais; módulos II: valore individuais; módulos III: valores sociais:
módulos IV: valores intelectuais. E gradualmente os adultos vão transmitidos os
valores medindo o nível de assimilação dos iniciados. Para facilitar a compreensão
dos módulos dos valores na sociedade de ritos de iniciação macua, vamos separar
o discurso sobre os ritos de iniciação femininos dos ritos masculinos.
RITOS FEMENINOS
Existem uma separação entre ritos femininos e rito.
Agora vamo-nos ocupar do discurso sobre os ritos
femininos.
Os autores dos
ritos de iniciação
Os
autores dos ritos de iniciação – independente do género: masculino ou feminino
é os pais ou encarregados das crianças e muitas vezes em coordenação
alimentares e monetárias, contactam e muitas vezes tradicional, indicam os
mestres como facilitadores da actividade de educação crianças.
Os mestres dos
ritos de iniciação
Os ritos de iniciação femininos realizam-se de duas
formas, dependendo da região. Algumas regiões como Corrane, Moma os ritos de iniciações
femininas são mediadas, primeiros pelas mulheres e, na parte conclusiva pelos
homens. Os homens intervêm nos ritos femininos por serem conhecedores da
ciência dos (milepo). Noutras regiões como Angoche, Mecuburi e Nampula-cidade.
Os ritos são orientados ao fim só pelas mulheres. Os mestres dos ritos de
iniciação são pela expressão da vontade dos espíritos. Os espíritos escolhem e
revelam o ensino a certos homens e mulheres. Portanto, parasse ser professor dos
ritos não são pela expressão de vontade humana, mas dos espíritos amatchini.
O TEMPO DOS RITOS
DE INICIAÇÃO
Quer na antiguidade quer na modernidade, os ritos
femininos dependeram do calendário do ciclo de menstruação das mulheres. Na
antiguidade, os ritos femininos decorriam num período de seis dias, período
máximo e normal de uma mulher cumprir com a menstruação. No tempo actual, este
seis dias de iniciação feminino reduziram-se a três, tempo mínimo de
menstruação de uma mulher
A partir da primeira menstruação, os pais, e, dependendo
das suas condições económicos, podem iniciar a sua filha ao longo do ano. Cada dia
dos ritos de iniciação corresponde a um conjunto de ensinamentos que chamados
de modulo.
Primeiro dia
valores coletitos e reverenciais a deus e aos régulos
No primeiro dia, o régulo (Mwene) e sua Cúria reúne com
as famílias que têm filhaspor iniciar para discutirem a organização do evento:
alimentação, limpeza do recinto, recepção dos convidados aquisição da matéria
do oculto (ephepa). A tardinha, o Mwene é acompanhada com sua corte e as mães presidem
o culto de ̎ohela makeya̎ (sacrifício tradicional). O sacrifício é dirigido a
Deus. Porem, tem-se pedido a intercessão dos antepassados juntos de Deus para o
sucesso dos ritos de iniciação.
Ao regresso da
oração, o Mwene reúne-se com a/o mestre dos ritos apresentados as condições
criadas e dando credencial oral de trabalho dos ritos. Combina-se os valores
pagamento ao mestre e ao régulo por cada candidata. Depois do jantar as
mulheres iniciam com a dança de Makiyekiye (cantos de ritos até o dia
seguinte.
Segundo dia valores
familiares – ovoloiha
As verdadeiras instruções a feminina começam com karare.
Vestidas só de penso (Nakapa), as meninas são perseguidas para junto do rio
onde serão instruídas para a observância das regras durante período da
menstruação. Do rio, as iniciadas são novamente perseguidas nuas e, ao chegarem
no pwaro, disputam a entrada da casa pela porta estreita da tenda do mwene.
Dentro da casa e nuas, as iniciadas são instruídas pelas velhas (geralmente que
não entrem no ciclo de menstruação) como manipular os pequenos lábios
(otthuna). Findo de o ensino, as iniciadas sentadas, segue-se com as danças e
conselhos de respeito aos velhos e as crianças até o dia seguinte.
Terceiro dia ritos de othapa (ritos de louvor)
Os ritos de louvor consistem no seguinte: a muito muito
tempo, as madrinhas traziam tecidos de casca de árvores (nacottodesignando por
muttitti). As madrinhas revestem as filhadas pelas ancas.
As bailariam cantam os cantos de ovação (louvar) pelos
favores que as iniciadas merecerem por parte das suas madrinhas. Em seguida, as
velhas chegam para o controlo e avaliação das donzelas sobre as técnicas, de otthuna.
Findo o controlo, as iniciadas recebem vários conselhos sobre o amor dos
familiares preparam Iphika.
Quarto dia
Valores colectivos: preparação para o encerramento dos
ritos, Iphika e Ravelani
O dia de iphika éde preparacao para o encerramento dos ritos.
As mães, as matrinhas recressam as suas casas para avisar aos esposos e
familiares que os ritos estão para terminar. Assim, as mães auxiliadas pelo
esposo e familiares preparam iphita.
Quinto dia
Valores colectivos: ritos de conselhos, Olaka ou Ithori
Os ritos de quinto dia começam ao anoitecer com das
danças. Depois vêem as conselheiras (anamalaka) para dar conselhos sobre o
respeito aos esposos dentro e fora da casa, familiares, velhos, e crianças. É
dia em que a mulher é tornada clara que mãe (rainha=apwiyamwene) de todos, por
isso é dita que seja generosa, hospitaleira, paciente para com as crianças e os
velhos. Sendo fonte de riqueza material e espiritual, mulher é retirada para
trabalhar em favor da sua família.
Os ritos de okhuma são os últimos. Dep[ois da formacao, a
curandeira entrega as donzelas iniciadas ao mwene. Este depois do discurso de
conselhos aos familiares das mininas dos seus esposos autorizava que cada mãe
leve a sua filha para casa. O que acabamos de descrever são tipos de ritos
femeninos antigos. Segundo Anamalaka de Moma, os ritos antigos não tinham
Milepo.
MÓDULOS DE RITOS DE
INICIACAO ACTUAL
Modernamente os dias de iniciação reduziram a quatro
modelos: Karere, onyipi, olaka e ipaho.
|
Dia:
|
Modulo:
|
Ritos:
|
Mestres:
|
|
1º
|
Karere
|
Instrução sobre a higiene durante a menstruarão;
Instrução sobre as técnicas de othuna
|
Velhas que não menstruam em geral
|
|
2º
|
Onyipi
|
Provas se as mininas não foram prostityutas
Instrucao sobre a preparacao sobre iphici sobre duas
matrinhas em, forma de mó
|
Conselheiras e matrinhas.
Nota: as mães das donzelas que em casa aprenderem ritos
de mweteri (parto) ou de ekhuka
|
|
3º
|
olaka
|
Ensino dos milepo
Makukurya (ensino pelo respeito dos quartos dos
parentes e pais
Ensino através de othori
|
Conselheiros ou conselheiras dependendo da região.
Madrinhas
|
RITOS MASCULINOS
Os ritos de
iniciação masculina decorrem num período relativamente longo em comparação com
o tempo dos ritos femininos. O longo tempo de ritos masculinos é devido a
operação do prepúcio do pénis que deve cura no próprio acampamento onde decoremos
ritos. Na antiguidade macua, os ritos durava cerca de um ano, isto é, do início
da colheita dos produtos de machamba até ao mês da preparação e lançamento da
sementeira a terra vice-versa. Tal como os ritos femininos, os ritos masculinos
estão estruturados em módulos.
MODULO I: VALORES
SOCIAIS E REVERENCIAIS
O módulo de ovolowa
compreende os seguintes rituais:
Rituais de olaherya
(despedida): corte de cabelo ao iniciando do padrinho; oração; consagração do
iniciando pelo derrame de farinha do sacrifício; partilha da comida; desnudação
do iniciando e partida para o acampamento dos ritos de iniciação.
Rituais das tendas
(omashashani): administração de etutha. Etutha é espécie de ΄anestesiaˋ
aplicando a um candidato a operação do prepúcio para que não lhe influencie
para impotência sexual no futuro. Rituais de Amarrava: operação de prepúcio,
aspersão do medicamento tradicional para fortificar a coluna do operado,
introdução do pénis na ratilha (makhoro) para a protecção do pénis contra as
mágoas. Entrega de Nikula.
Ritos de namuhakwa
Os iniciados,
sentados sobre esapala yanphili (espaço poeirento, são cobertos seus prepúcio
de poeira a traves da dança poeirenta que os patinhos realizam entre pernas de
seus afilhados. Obriga-se que se dê a beber aos iniciados água turva, que se
supõe que ira contribuir para a cura do prepúcio por dentro.
Ritos de Nikano (mandamento) –
recomendam para a observância dos tabus e impurezas sexuais por parte dos pais
e padrinhos dos iniciados.
Nota: com o primeiro dia da iniciação
masculina, começa-se a contar em semanas.
Após a
recolha dos vários alimentos, no acampamento acontece uma grande festa de
ravelani que exclui os pais que iniciam pela primeira vez seus filhos.
MODULO II – VALORES
SOCIAIS, REVERENCIAIS (NA VIDA DE ONAMUHAKWANI)
1º Ritos de
humildade e sofrimento: Cantos, danças e práticas humilhantes e insultuosas
para provação da capacidade de tolerância, de coragem dos alukhu iniciados.
2º Ritos de obediência: Cantos, danças
contar histórias, contos, lendas, provérbios, obrigar os iniciados certos
actividades.
3º Ritos de cuidado de família e
idosos: Cantos, danças, e práticas edificantes e educativas sobre a importância
da família, do lar.
4
Ritos de distracção do sofrimento: Cantos,
danças e práticas de divertimento, caça.
MODULO III – PREPARAÇÃO PARA POTENCIA SEXUAL E CORAGEM
Valores de prosperidade
1º Ritos
anúncio do dia da saída do Namuhakwa.
2º Rito
apwiyamwene (rainha) mergulha mapira (oruweya miropo= fermento) na casa do
Mwene (chefe) para a preparação de Otheka (bebida tradicional) que servirá para
mususu.
3º
Ritos no dia de saída de Namuhakwa, constrói-se N΄vera. No Nvera, atemoriza-se,
através de da imitação do rugirdo leão, (Omwatto); faz-se também o rito de
Ohoma ekuluwe (azagaiar o porco) como prova de fecundidade.
Realizados os ritos de Omwatto e de ekuluwe, as mães trazem comida
confeccionada que depois de cerimonio de okhuma, é dada a comer aos seus
filhos.
4º Ritos
de funerais: o mestre dos ritos constrói um boneco das sobre da comida (ewolowa)
e, depois de apresentar diferentes tipos de mortes (por doenças, por agressão…)
e respectivos ritos de enterros, ensina aos lukhus como fazer a planta e abrir
uma campa (olepela ni othia mahiye), abrir o sarcófago, leito do morto
(otthemurya mahiye), e ensina os gestos de enterro deitar areia na campa
através dos dedos mínimos de posição de cócoras pelos quatro cantos, tendo
tapado os ouvidos com as folhas de rokosi.
5º Ritos
de mudanças de nomes. Depois dos ritos funerais, no dia seguinte, os iniciando
na casa real, ao som das flautas (woopa iphivi = makhuma aretthe), tomam novos
nomes atribuídos pelos padrinhos.
Observação: Nos costumes dos ritos antigos, ensinava-se que os iniciados
não deveriam comer a carne de animais com pele porque provocava
esterilidade.
Milepo e ittori
É prática comum
entre os amakua realizar os ritos de milepo e itthori. Milepo é o ensino dos
mistérios da região, de Deus, dos homens, dos animais, das coisas e da
matemática através dos símbolos revelados pelos espíritos, macini. Milepo são
bonecos feitos, em princípio, de farelo de mapira (milho…) que namalaka utiliza
para ensinar os dias de criação de Deus, alianca entre Deus e o homem. Os
milepo classificamÉse em dois: milepo escrito sobre o chão ou lençol e milepo
escrito naspeneiras.
MULEPO DESENHADO SOBRE O LENÇOL OU A TERRA
Mulepo
é um boneco em forma de arco – íris, com seis ramificações, cuja ponta termina
com um ovo de uma galinha. As seis ramificações simbolizam os dias de trabalhos
de Deus. Com mulepo, o macua é instruído que Deus criou o mundo e as coisas em
cinco dias. Porem, Deus receou que o homem esquecesse os dias de seu trabalho,
sendo assim, fê-lo com cinco dedos em cada mão ou pé.
O sexto e o sétimo dia são especiais. No sexto dia é o
dia em que o homem foi criado e o sétimo, representado pelo ovo, foi dia de
descanso de Deus da actividade de criação. Por isso, depois dos cinco dias, o
que aparece em diante é especial. Portanto, os cinco são a base auxiliar do sistema
de numeração macua.
5+1 =
6 (dia em que foi criado o homem); 5+2 = 7 (dia em que Deus descansou); 5+3… =
história do homem sobre a terra.
Além
de escrever os cinco dias da sua actividade nas mãos e dedos do homem, Deus
actualizou os dias máximos de seu trabalho no ciclo de menstruação da mulher
(Seis dias de criação, período normal e máximo de uma mulher poder menstruar, e
o sétimo dia que é de descanso).
Como Deus, todo o homem aprende que toda a actividade começa com o
trabalho e termina com o descanso. E se começamos com Deus, terminamos com Deus
(Deus é principio e fim – ephatthu ni emalelo do homem). Dai que o homem deve
viver reconciliado e pacifico com os outros e com Deus por toda a eternidade e não
deve violar sexualmente sua esposa no período de menstruação.
Para o macua, o período de menstruação de uma mulher pertence aos dias
misteriosos da criação de Deus e, portanto, em sinal de respeito e adoração,
não deve coabitar na sua mesma cama nem se beneficiar dos seus serviços simples
(salgar comida, água…). Mulher é sagrada, é mãe, nela estão representados os
mistérios (segredos) de Deus. Portanto, quem viola uma mulher menstruada, Deus
o punira com as doenças de dores de barriga, de hidroxilo,(Ikhunyunyu) porque
alimentou-se de tabu (olyamwikho= pecado). Nota: Na antiguidade, o rito de
deixar nome celebrava-se depois da cura dos prepúcios, ao som das flautas no
pwaro do mwene, os iniciados tomavam nomes para casa (masinaatthokloni);
e sados, três meses, dentro do pwaro real, rodeada pelos parentes, os iniciados
tomavam nomes definitivos.
CONCLUSÂO
Formar o homem ou mulher madura /o capaz de ser
confiada/o pela sua família, sua tribo, sua sociedade em todas dimensões
humanas. O presente trabalho conclui-se sendo homem pensa, organizar em família
ou sociedade, fala e vive com os outros. Na companhia dos outros, o homem cria
a cultura. Também a educação é a principal mediação na introdução dos mas novos
pela primeira vez na cultura e na sociedade.
A educação tem dimensão histórica – social, é portada de
valores (orientação, gerais, e normativas de uma sociedade), sentimentos
crenças e praticas partilhadas pelos adultos e que se pretendem despertar nas
crianças.
É a partir dos determinantes sócio – históricos e
culturais que, em cada tempo e lugar, as sociedades formulam sua própria
educação. Por exemplo, em Nampula o povo macua a educação pelos ritos de
iniciação como meio para o desenvolvimento da própria cultura macua.
O
presente livro conclui-se que o homem pensa, organizar em família ou sociedade,
fala e vive com os outros. Na companhia dos outros, o homem cria a cultura.
Também a educação é a principal mediação na introdução dos mas novos pela
primeira vez na cultura, na sociedade.
A
educação tem a dimensão histórica - social, é portadora de valores
(orientações, gerais, e normativas de uma sociedade), sentimentos, crenças e
práticas partilhadas pelos adultos e que se pretendem despertar nas crianças.
É a partir
dos determinantes sócio – históricos e culturais que, em cada tempo e lugar, as
sociedades formulam sua própria educação.
Em
Nampula, por exemplo, o povo macua considera a educação pelos ritos de
iniciação como meio para formar o homem ou mulher madura/o capaz de ser
confiada/o pela sua família, sua tribo, sua sociedade em todas dimensões
humanas.
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